Eu estava numa lancheria no Mercado Público, em São Paulo, e assisti esta cena: um homem, de aproximadamente 35 anos, chega esbaforido para pagar dois cafezinhos que havia esquecido ao sair. Já se encontrava na rua quando lembrou da dívida de R$ 8,00. A atendente, em tom de brincadeira, disse: “já ia mandar a polícia atrás do senhor”, ao que ele respondeu: “é, mas eu é que não ia poder dormir esta noite”.
Imediatamente, a imagem de Immanuel Kant (1724-1804) me veio à cabeça. Pensei em duas coisas: Será que este rigor ético demonstrado pelo homem é fruto de um desenvolvimento da consciência, por conseguinte do “dever” apregoado pelo filósofo, ou seja, aquilo que eu devo fazer, aquilo que a minha consciência determina é o correto. Ou será que é conseqüência de um aprendizado moral inculcado por normas de condutas sociais?
Os dois casos são positivos, diria a maioria dos leitores. É claro, mas há diferenças básicas. Uma coisa é eu apagar a luz de uma peça em que não estou usando para economizar a conta no final do mês, outra é eu ter a consciência de que a economia de luz possibilita economia para mim, para o país e para o planeta. Através da minha consciência reflito sobre as várias fontes de energia e concluo que se eu não desperdiçar a energia estarei preservando e prolongando a vida no planeta. Seja em equipamentos no caso da água, de carvão mineral que não é renovável, ou do urânio que, além de não ser renovável, é altamente poluente. É uma decisão baseada no desenvolvimento interno da consciência.
É óbvio que num país em que nem as regras são cumpridas, muitas vezes, temos o direito de pensar que o filósofo alemão era um purista. Não podemos esquecer que Kant era um utópico. Acreditava no homem como ser capaz de solucionar os problemas da vida com o uso correto da razão.
Depois de presenciar a fome no mundo, as guerras, o holocausto ( no seu próprio país), as devastações do planeta, imagino se Kant ainda confiaria na razão humana. O que vocês acham?
26.11.08
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
Férias às avessas
Os hotéis são uns ingratos. Idem passagens aéreas via smiles. Eles não esperam a decisão de minha família. Em todas as férias e feriados prolongados é a mesma lenga-lenga. Para onde vamos? O acordo é semelhante a ano bissexto. Os filhos querem ir para a praia no verão e para a zona da serra no inverno. Como todo o ser normal.
Já os coroas preferem o inverso. Ambiente calmo, preço baixo e bom atendimento. Nada que se assemelhe a fila e a correrias. Imaginem a BR 101 no verão com um baita congestionamento e aquele calor de rachar. O suor pingando em bicas. Que beleza! Não sei por que eles não entendem isso? Parece tão óbvio! Que maravilha uma praia vazia! Até rimou. Areia em abundância para uns poucos contra a maré.
Quem conhece a praia do Mar Grosso, em São José do Norte, sabe do que estou falando. Uma imensidão de mar a tua frente, calma, areia para estirar-se à vontade e paz. Ah! E as maravilhas dos frutos do mar preparados pelo suíça. É inesquecível! Desde a saída de Rio Grande, a travessia de barca dá o charme da viagem.
Ninguém se decide a viajar. Sozinho. Queremos andar em bandos como andorinhas. Ninguém arreda o pé de casa. Quando alguém sugere algo que agrada a todos, as datas não fecham. Ou então alguém diz como último suspiro: “vão vocês”, para nós, os pais. Aí adiamos para a próxima vez porque em Salvador, queríamos mostrar o lugar onde moramos para eles... em Recife, idem.......Quem disse que alguém queria viajar? Até as próximas férias!
26.11.08
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
Tentativas
Adolescente, não sabia quem eu era. Conhecia tão somente as dúvidas, os temores. As experiências eram intensas. Se ao menos pudesse sair fora de mim e me observar: como ando, falo, me ver pelas costas. Se ao menos pudesse ser tecida quadro a quadro como uma colcha de retalhos: juntar, juntar, o melhor do outro. Quem sabe seria a perfeição? Se ao menos pudesse penetrar nos olhos dos outros e ver como eles me veem? Ah! medos aterrorizantes que atordoam a alma como noites escuras de tempestades! Ah! temores horripilantes para uma menina assustada. Simples, como as quermesses do colégio das freiras em Soledade.
16.08.08
quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
Contas da vida
Os meus 54 anos me ensinaram muitas coisas. Coisas para guardar, coisas para mudar e coisas para jogar fora. Dentre as coisas para jogar fora está a pressa. Pressa para o dia render. Pressa por pressa. Pressa para ler e dar conta de outros tantos livros que me olham, pacientemente, há meses. Pressa para falar. Pressa para fazer as refeições. Pressa para escrever. Pressa para ouvir os tormentos alheios. Pressa para curtir o por do sol. Pressa para tomar o chimarrão. Pressa para aprender. Pressa para desaprender. Pressa para admirar as flores da buganvília. Pressa para respirar. Pressa para emagrecer. Pressa para apreender o essencial.
Dizem que o apressado come cru. O povo sabe das coisas não por acaso. Milênios o ensina.
17.09.08
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
Sempre aos domingos
Aos domingos, os rapazes visitavam as namoradas no internato. Durante a sesta das moradoras, eles chegavam. Quietos, para não chamar a atenção da chegada. Não era proposital e nem pré-determinada a atitude. Era assim. Como um acordo tácito entre as partes. Éramos em torno de quatro ou cinco meninas em idade de namoro. Havia uma única sala para visitas. Era o lugar onde ficávamos. Na verdade, o namoro era em grupo.
Um domingo, a madre superiora interrompeu o acordo. Chegou, sorrateira. Fiquei alguns segundos sem respirar. Não sei os demais. O que ela teria vindo fazer? Acabar com as visitas domingueiras? Passar um sermão? Colocar regras e horários, ou nada disso?
O grupo manteve a conversa e o bom-humor. Pelo menos, na aparência. E como uma orquestra começou a tocar o instrumento com uma afinação sem igual. A solução foi inusitada. Um de cada vez falava sem parar. A conversa não permitia brechas para a madre dizer a que veio. De tudo foi lembrado. Do aniversário do dia anterior, da festa do próximo domingo, do sucesso da quermesse para angariar fundos para a construção do ginásio de esportes, dos novos jogos adquiridos pelo colégio, do destaque de algumas internas nos campeonatos de vôlei e pingue-pongue da cidade, dos preparativos para o aniversário dela no próximo mês e muito mais. Como uma partida de vôlei. Quando alguém pegava a bola, passava para o outro e chegava à rede para marcar ou não o ponto, mas não interessava.
A madre abria a boca e era logo interrompida. O que ela teria vindo fazer naquele dia e naquele horário como intrusa entre os jovens apaixonados? Depois de 40 anos, às vezes me pergunto: o que ela pretendia nos dizer? Será que ela nutria algum temor? Será que ela não aceitava as visitas? Nunca soubemos.
De repente, ela levantou-se, calma, alegre, e foi embora. Sem dizer uma palavra.
28.11.08
Um domingo, a madre superiora interrompeu o acordo. Chegou, sorrateira. Fiquei alguns segundos sem respirar. Não sei os demais. O que ela teria vindo fazer? Acabar com as visitas domingueiras? Passar um sermão? Colocar regras e horários, ou nada disso?
O grupo manteve a conversa e o bom-humor. Pelo menos, na aparência. E como uma orquestra começou a tocar o instrumento com uma afinação sem igual. A solução foi inusitada. Um de cada vez falava sem parar. A conversa não permitia brechas para a madre dizer a que veio. De tudo foi lembrado. Do aniversário do dia anterior, da festa do próximo domingo, do sucesso da quermesse para angariar fundos para a construção do ginásio de esportes, dos novos jogos adquiridos pelo colégio, do destaque de algumas internas nos campeonatos de vôlei e pingue-pongue da cidade, dos preparativos para o aniversário dela no próximo mês e muito mais. Como uma partida de vôlei. Quando alguém pegava a bola, passava para o outro e chegava à rede para marcar ou não o ponto, mas não interessava.
A madre abria a boca e era logo interrompida. O que ela teria vindo fazer naquele dia e naquele horário como intrusa entre os jovens apaixonados? Depois de 40 anos, às vezes me pergunto: o que ela pretendia nos dizer? Será que ela nutria algum temor? Será que ela não aceitava as visitas? Nunca soubemos.
De repente, ela levantou-se, calma, alegre, e foi embora. Sem dizer uma palavra.
28.11.08
domingo, 30 de novembro de 2008
As confissões que não confessam
Assisti ao filme As Confissões de Henry Fool. Ele é perturbador, deprimente e violento. Apresenta o submundo americano, leia-se o mundo da maioria dos imigrantes clandestinos, de uma maneira notável. Mostra que nem sempre o acreditar no sonho e o persegui-lo com obstinação são razões suficientes para o sucesso e o reconhecimento público.
O fator sorte, o estar no lugar e na hora certa fazem toda a diferença. Mas, quando o lugar e a hora são errados? Bem, então é o caos em toda a sua plenitude.
Na verdade, as confissões não confessam porque o escritor é enterrado-vivo pelo seu tempo. Se até Monet vendeu apenas um quadro em vida, fica o registro - consolo para os incompreendidos pelos seus contemporâneos. E a dica para que assistam ao filme.
terça-feira, 25 de novembro de 2008
Amizade
Uma das passagens mais marcantes que li sobre a amizade foi no livro Saber Envelhecer Seguido de A Amizade, de Cícero, em que ele diz que a amizade vale mais que o parentesco porque você pode ter parente sem amizade, mas não pode ter amigo sem amizade.
Ele destaca de que a amizade não é senão uma unanimidade em todas as coisas divinas e humanas, acompanhada de afeto e de benevolência. E pergunta – não seria ela, excetuada a sabedoria, o que o homem recebeu de melhor dos deuses imortais.
Acredito que Cícero interpretou como ninguém este sentimento profundo e confortante dos humanos. Sentimento que nos aquece o coração nos momentos difíceis e naqueles em que necessitamos extravasar a alegria da alma. Amigo é um bálsamo da vida. Como água fresca nos dias em que o calor nos consome o corpo.
Eu tenho uma amiga, alma gêmea. Quase não nos falamos, mas somos amigas. Parece que a fala é dispensável entre nós. A amizade alimenta o espírito e nos conforta. Sempre. Ela sabe o lugar em que está guardada a nossa amizade. Eu também sei. É um privilégio ter uma amiga assim. Nas horas de aperto, de dúvidas, ou de contar as coisas boas, sabemos onde a outra se encontra. Temos a certeza da alegria e do compartilhamento mútuo.
Eu aplaudo as conquistas, a filha, o marido, o trabalho, os cursos dela como se aplaude as conquistas de um filho. Com amor, pleno!
12.03.07
Ele destaca de que a amizade não é senão uma unanimidade em todas as coisas divinas e humanas, acompanhada de afeto e de benevolência. E pergunta – não seria ela, excetuada a sabedoria, o que o homem recebeu de melhor dos deuses imortais.
Acredito que Cícero interpretou como ninguém este sentimento profundo e confortante dos humanos. Sentimento que nos aquece o coração nos momentos difíceis e naqueles em que necessitamos extravasar a alegria da alma. Amigo é um bálsamo da vida. Como água fresca nos dias em que o calor nos consome o corpo.
Eu tenho uma amiga, alma gêmea. Quase não nos falamos, mas somos amigas. Parece que a fala é dispensável entre nós. A amizade alimenta o espírito e nos conforta. Sempre. Ela sabe o lugar em que está guardada a nossa amizade. Eu também sei. É um privilégio ter uma amiga assim. Nas horas de aperto, de dúvidas, ou de contar as coisas boas, sabemos onde a outra se encontra. Temos a certeza da alegria e do compartilhamento mútuo.
Eu aplaudo as conquistas, a filha, o marido, o trabalho, os cursos dela como se aplaude as conquistas de um filho. Com amor, pleno!
12.03.07
Assinar:
Comentários (Atom)